Rivânia Rodrigues: “Resistir é transformar”

Rivânia Rodrigues: “Resistir é transformar”

Como o avanço do fundamentalismo na atual conjuntura política do Brasil vem propiciando o preconceito e o ódio nas diversas esferas da sociedade 

 

Apesar de lutar contra o machismo e a LBTfobia, as marcas das batalhas que enfrentamos estão nos nossos corpos e almas e devem ser lembradas nesse sentido.  Muitas lésbicas, mulheres bissexuais, travestis e transexuais sofrem com a enorme ocorrência de estupros corretivos, violências físicas, psíquica, emocional, chegando diversas vezes até a morte.

 

Em consideração aos fatores emocionais e psíquicos, o Conselho Federal de Psicologia vem atuando em suas resoluções 001/99 (que orientam as/os profissionais aos cuidados e escuta do que se refere às orientações sexuais LGBT) como também a resolução 001/2018 (que dispõe a despatologização da transexualidade e da travestilidade).

 

Neste sentido, as/os profissionais de psicologia têm o dever de escuta do sofrimento psíquico causado pela LGBTfobia. Sendo assim pautadas as resoluções que se baseiam na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Compreendendo que os rótulos sociais adoecem, excluem, segmentam e propiciam o adoecimento psíquico.

 

Os estupros das lésbicas e mulheres bissexuais para além do machismo enraizado ainda é agravado pelo fato de o agressor acreditar na “mudança” da orientação sexual de mulheres que se relacionam com outras mulheres.

 

Para as travestis e mulheres transexuais, o simples fato de existir é uma afronta a uma sociedade normatizada pelas relações de poder, onde o homem branco, heterossexual e cristão é a base e tudo que vier a diferir dele está errado.

Compreender as identidades de gênero destas mulheres é um avanço extremamente importante para a luta de todas as mulheres.

 

Neste sentido, compreendemos que o Brasil tem números alarmantes de estupros corretivos das lésbicas e mulheres bissexuais, assim como cresce também assustadoramente o assassinato de travestis e mulheres transexuais.

 

Esses casos de estupros corretivos constantes, muitas vezes cometidos por parentes muito próximos, são a expressão mais violenta de onde podem chegar o ódio pelas LBs e as TTs. A violência é de cunho machista, misógino e fundamentalista.

 

As mulheres que vivem no cárcere, seja no complexo masculino onde estão as TTs ou nos complexos femininos onde estão as lésbicas e bissexuais, também são violentadas sexual, emocional e fisicamente apenas por serem quem são: é uma lbtfobia institucionalizada.

 

Não podemos deixar de falar sobre as questões raciais e de classe, pois os direitos são negados principalmente para as mulheres negras que estão nos quilombos urbanos e rurais, pois o racismo é ambiental, estético, de classe e também de orientação sexual e identidade de gênero – fatores reforçados pela influência patriarcal eurocêntrica de nossa sociedade.

 

A ideologia machista é lesbofóbica, bifóbica e transfóbica muito aproveitada pelo capitalismo para explorar mais e impor padrões de comportamento, colocando para as mulheres LBTs duas alternativas: a repressão da sexualidade das mulheres que as obrigam a buscar um único e encantado “homem” a quem a mulher irá pertencer para o resto da vida; a outra alternativa é o tratamento das mulheres como pedaços de carne que devem servir aos prazeres sexuais dos “homens”.

 

As mulheres LBTs, por romperem com essas vias que a ideologia machista e lesbifóbica e transfóbica impõe, acabam por impor muitos sofrimentos e consequências.

 

Acreditamos que para essas práticas acabarem precisamos atacar o sistema político, econômico, social e cultural que as perpetuam: o capitalismo, através de ações conjuntas e das diretrizes feministas e diálogos entre os movimentos para enfatizar os direitos de todas as mulheres independente de orientação sexual, identidade de gênero, raça, classe ou quaisquer outros demarcadores sociais e culturais para fazer os enfrentamentos as estruturas normatizadoras e negadoras dos direitos em todos as suas interfaces.

 

Como parte dessa luta, defendemos a ampliação dos direitos das mulheres LBTs. O estado precisa garantir na sua transversalidade de políticas públicas para LBTs, principalmente na saúdeeducação, moradia, desenvolvimento econômico e jurisprudências.

 

Nossas pautas necessitam de visibilidade e representativa no poder legislativo, executivo e judiciário, principalmente nesses anos de golpe e retrocessos políticos e avanço do fundamentalismo religioso.  É urgente a garantia ao direito de cidadania plena e democrática, para que possamos ter uma sociedade sem racismos, machismos e LBTFOBIA.

 

Rivânia Rodrigues é secretária Estadual LGBT de Pernambuco e atua na pasta de Mulheres da Secretaria Nacional LGBT do PT, para a Tribuna de Debates do PT