O fator Marília Arraes

O fator Marília Arraes

Por Roberto Numeriano

Nos cálculos eleitorais dos políticos, o imponderável e o subjetivo são dois fantasmas recorrentes. Na eleição deste ano para o governo de Pernambuco, eles já estão (onipresentes) de um modo crítico. E a causa disso é a pré-candidatura da vereadora Marília Arraes, do PT, cujas intenções de voto apontam um potencial de crescimento capaz mesmo de decidir a eleição no primeiro turno, a depender da soma favorável de pelo menos três variáveis fundamentais, a saber: a) o apoio engajado do ex-presidente Lula; b) as alianças táticas do campo da esquerda e centro-esquerda nas três sub-regiões; e c) o tipo de campanha inclusiva direcionada ao eleitorado médio e assalariado na Região Metropolitana do Recife. Vou me abster agora de tratar desta última variável.

Em primeiro lugar, nos termos possíveis de uma análise na esfera do imponderável (no sentido de não calculável como projeção estatística), o apoio de Lula à candidatura de Marília Arraes vai somar votos via fenômeno da transferência. O ex-presidente é um dos poucos políticos do país cujo carisma influencia de fato a opção de voto de massas consideráveis de eleitores. Fora ou dentro da disputa pela presidência da República, Lula vai galvanizar dezenas de milhares de votos decisivos, sobretudo se se confirmar uma disputa acirrada na majoritária de governador. 

O nome de Lula e Arraes, somados, compõem um imaginário político-social por si só carregado de um simbolismo ideológico que provavelmente vai ultrapassar as curvas estatísticas históricas do voto majoritário. Alie-se a isso os fatores subjetivos juventude e combatividade (associáveis à renovação política), honestidade e experiência (associáveis à competência e à ética), e teremos um vasto campo social aberto para o discurso empático da candidatura de Marília. 

Em segundo lugar, uma vez confirmado o seu nome, a tática de coligações dentro de um arco político-ideológico claro (mas nem por isso fechado em si mesmo), tenderá a agregar forças políticas com potencial de capilarizar a presença da candidatura como um diferencial real nas sub-regiões estaduais. Ou seja, o apoio de Lula vai atrair extensivamente mais votos nesses três colégios eleitorais, mas a participação intensiva / engajada decisiva virá da militância daquelas forças do centro à esquerda do espectro ideológico.

A extensão do poder eleitoral atrativo que Lula exerce trás, ao mesmo tempo, o desafio de o beneficiário do seu apoio não se perder no espaço concreto social (faixas de renda, graus de escolaridade e faixas etárias), a ponto deste imaginar que não há nada político-ideológico a ponderar no momento de produzir um discurso coerente e inteligível, o mais universal possível nos termos daquele arco. De fato, trata-se de elaborar um discurso politicamente universal, mas identificável ideologicamente como legatário de forças sociais e histórias de lutas que remetem à própria trajetória de Lula e Arraes (lembre-se, aqui, Miguel Arraes). Em outras palavras, é necessário formular um discurso tático de campanha majoritária que articule a defesa da democracia e suas instituições centrais (a agenda política) com a defesa de um projeto de nação inclusivo, libertário e progressista (a agenda social), sob um eixo ideológico que somente um arco de centro-esquerda pode tecer e tocar.
Cabe dizer, neste ínterim, que o raciocínio também serve para qualquer candidato ao Senado: o arco de votos de centro-esquerda será potencializado como desaguadouro natural desse discurso.  Há um espaço na agenda de centro-esquerda para ser ocupado pelo candidato ao senado que fizer a melhor ressonância desse discurso. E em tal espaço só caberá um nome. Afinal, a campanha deverá ser, para além de propositiva, também a denúncia do golpe de Estado de 2016 e seus efeitos sociais e econômicos deletérios. Ou um eventual nome do PT ao Senado poderá pedir votos abraçado com quem um dia desses se aliou ao golpe dos corruptos e venais? Até na política existe limites para o cinismo...

 O fator Marília Arraes também enfrenta um desafio de difícil ponderação. Trata-se da luta interna petista a respeito de sua postulação como pré-candidata. A já famosa foto do governador Paulo Câmara junto a Lula, onde vemos ainda a viúva Campos com saracoteiro entusiasmo olhando embevecidamente para o ex-presidente, além do “príncipe” João Campos e outros comensais do poder, seria o sinal da formalização de uma costura espúria. Há quem especule que a foto é a prova antecipada de que já foi pedida a cabeça de Marília, sendo a cara constrangida de Lula o retrato fiel do abraço do PT ao PSB, partido fundamental no golpe de Estado que nos jogou nesta vala suja e infame de um regime de exceção.

Creio que esse jogo ainda corre. Se a cúpula do PT, por força das vaidades e lutas de poder internas, no passado recente já entregou a Prefeitura do Recife ao PSB, isto não quer dizer que os interesses de alguns caciques vá fazer com que o partido arme um laço e se pendure nele pelo pescoço. A vitória eleitoral de dois ou três caciques petistas no colo do PSB seria a derrota inteira do PT como projeto viável de poder em Pernambuco. Rifar Marília Arraes e se abraçar com a agenda ideológica e política dos traidores de todo o projeto petista será, efetivamente, a demonstração de que o fisiologismo e a demagogia são também marcas comuns ao PT.

Roberto Numeriano é pós-doutor em Ciência Política, pré-candidato a deputado estadual e jornalista sem fins lucrativos.