O PT é fundamentalmente coração, afirma Sergio Mamberti

Kamilla Ferreira/Agência PT
6º Congresso Nacional do PT

Sérgio Mamberti em sua residência em São Paulo.

“Lula lá, sem medo de ser feliz”Sergio Mamberti, 78, ator e militante do PT desde a sua fundação recorda da frase da campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência da República, ainda em 1989. “O PT sempre falou com a linguagem do coração. O PT é fundamentalmente coração e o Lula expressa isso claramente”, conclui.

Em plena efervescência, no final da década de 1970, intelectuais, artistas e operários se uniram no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC,  Mamberti estava entre eles. “Na verdade, eu cheguei antes do PT nascer”, conta.

Nessa época, relembra, a ditadura militar havia chegado ao seu esgotamento máximo. O assassinato do jornalista Vladimir Herzog pelos militares em 1975 e de Manoel Fiel Filho, logo depois, demarcaram isso.

“O grande despertar começa com as greves do ABC, e com a chegada do Lula como uma liderança e uma possibilidade real de futuro para o Brasil. Então a gente se uniu a ele e aos outros companheiros”, explica. “Fizemos espetáculos na época das greves. O PT nasceu junto com os artistas. Não podemos esquecer de artistas como Lélia Abramo e de intelectuais como Antonio Candido”, afirma.

“O que é mais lindo no PT é que ele começou tão frágil e tão pequeno e com uma missão tão importante, mas a gente acreditava que a gente podia”, explica. “Não éramos tantos, mas éramos substanciais porque acreditávamos que podíamos construir esse partido”.

“Foi um desejo, um sentimento, foi uma inspiração que criou o Partido dos Trabalhadores. Essa inspiração veio do coração, e a cultura está ligada à emoção. São as diferentes identidades que o Brasil têm”, diz.

“O que é mais lindo no PT é que ele começou tão frágil e tão pequeno e com uma missão tão importante, mas a gente acreditava que a gente podia”

Segundo ele, o PT nasceu do sonho socialista e esse sonho certamente continua. “Quando Lula cria esse partido com essa identidade, um partido dos trabalhadores, ele fala justamente daqueles que constroem a riqueza de um país. A gente não pode esquecer nunca desse sonho.”

Cultura e política

“O PT nasce com a visão da participação da sociedade, na construção do processo político”, diz. E, para Mamberti, faltou um aprofundamento da construção política. “Principalmente tendo em vista a questão de comunicação do Brasil. Esse trabalho de desconstrução de tudo o que a gente faz através dos meios poderosos de comunicação que a gente tem”, diz. “Eles desconstroem diariamente tudo o que a gente vem construindo.”

O ator resgata uma das propostas do início do PT:

“Era um sonho que cada diretório se transformasse em um espaço de cultura e através da discussão cultural ocorresse também uma discussão política”, relembra. “Porque não resgatar essa possibilidade de que cada diretório seja um centro de discussão da comunidade, de forma que cultura e política estejam juntos e que possamos pensar em outras formas de comunicação?”, pergunta.

Diversidade e Democracia

Para Mamberti, outra marca do PT é a diversidade e a democracia interna. “O próprio Lula estava falando, nesses 37 anos do PT, que a coisa mais importante do partido é essa pluralidade, a diversidade de opiniões e essa convivência democrática”, afirma. “É isso que tem nos mantido vivos e atuantes dentro do processo político brasileiro”, diz. “A questão da diversidade e de uma visão mais ampla e plural do Brasil talvez tenha sido a visão mais estruturadora do partido.”

Congressos Nacionais do PT

Sérgio Mamberti resgata as lembranças das discussões acaloradas nos congressos petistas. “Em 1991 (1º Congresso), no intervalo, as pessoas estavam almoçando e a gente começou a discutir tanta coisa que as pessoas falaram: ‘o que a gente devia estar discutindo lá dentro (no Congresso), a gente está discutindo aqui”, relembra rindo.

Para ele, os congressos petistas sempre serviram para fazer as grandes avaliações, corrigir rumos e fazer avanços. “O 6º Congresso do PT vai ser iluminador. Ele pode nos dar a possibilidade de estarmos juntos para repensarmos estratégias e continuarmos nossas lutas”, afirma.

“As discussões são muito acaloradas e apaixonadas. Todo mundo discutindo no refeitório, antes, depois. Inflama o PT e essa chama tem que estar presente no 6º Congresso”.

A discussão do golpe vai estar neste contexto, acredita ele. “Depois do golpe contra a democracia, tivemos que nos reposicionar. O 6º Congresso vai ser uma grande oportunidade de fazer uma discussão ampla e tomar decisões sobre as mudanças e de como vai ser a nossa atuação para que a gente possa resistir à uma realidade tão dura”, diz.

 

Fernanda Estima/Acervo Sérgio Buarque de Holanda

Golpe

“Eu tenho 78 anos e não imaginei que a essa altura da vida nós íamos estar atuando desta maneira. Mas estamos na luta”, diz.

Para ele, assim que a presidenta eleita Dilma Rousseff (PT) ganhou as eleições em 2014, a direita já começou a atuar para derrubá-la. Segundo ele, o PT acreditou que o processo democrático havia alcançado uma firmeza institucional que não correspondeu à realidade. “Quem passou pelo golpe de 1964, sabe que essas forças reacionárias não desistem”.

O ator denuncia a espoliação do patrimônio brasileiro posta em prática pelo governo golpista. “ A usina de Belo Monte foi posta à venda. O complexo petroquímico de Suape custou R$ 9 bilhões e foi vendido por R$ 1, 2 bi, o Tillerson (secretário de Estado dos Estados Unidos e ex-CEO da Exon) querendo conversar com o Serra sobre o pré-sal”, conta.

“Quem passou pelo golpe de 1964, sabe que essas forças reacionárias não desistem”

A conjuntura internacional também é bastante desfavorável, aponta ele. “Toda aquela espionagem que o Snowden denunciou  (em 2014, Edward Snowden denunciou que os Estados Unidos espionaram Dilma e a Petrobras ilegalmente) já era uma preparação para o golpe”, diz.

“A gente vai ter que fazer uma avaliação não só no plano nacional mas da nossa América do Sul que foi tão fustigada neste processo”, diz. “Qual será nossa estratégia para recuperar esse espaço junto com o povo brasileiro?”, questiona.

Dona Marisa

“As mulheres petistas são muito valentes e acho que a Marisa representou isso muito bem. A figura da Marisa tem que ser mais exaltada por tudo o que ela representou. Todas as reuniões e conferências que eu tive presente ela também estava. Nunca foi só uma primeira-dama, mas uma primeira-companheira mesmo, uma grande companheira”.

Lula

autoria desconhecida/CSBH

Encontro de Lula com Artistas promovido pela candidatura “Lula Presidente” nas eleições de 1998

O ator também se emociona ao falar de Lula. “Certamente o Lula é para todos nós essa expressão de tudo isso que a gente quer. É um homem com todas as contradições, defeitos e qualidades, mas ele tem essa capacidade de liderar”, aponta.  “Então eu acho que nós temos de acreditar muito e dar muita força para que possa estar aí nessa luta com a gente e liderar mais uma vez neste processo”.

Por Clara Roman, da Agência PT de Notícias